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quarta-feira, 12 de novembro de 2008

A Feira do Fanzine de Almada explicada por quem a "inventou"


As origens da Feira Internacional do Fanzine de Almada remontam a 1986: era a primeira edição da Semana da Juventude (antes comemoravam-se o Dia da Juventude e o Dia do Estudante, como efemérides separadas) e um "fanzineiro" da terra foi a casa buscar as publicações que tinha, montou uma banca e expôs fanzines durante um dia inteiro... Só.

Mais tarde, apresentou à Câmara de Almada a proposta de fazer uma feira do fanzine "a sério". Tão a sério que, nos anos 90, foi um dos eventos mais imprtantes da programação da Casa da Juventude (Ponto de Encontro) em Cacilhas.

Pedro Morgado teve a ideia; José Pereira apoiou e acompanhou a realização do evento, desde a primeira edição.
Os dois são, actualmente, funcionários da Câmara Municipal de Almada. Em entrevista ao Almada Cultural, revelam as origens da feira, falam sobre o desenvolvimento da cultura alternativa durante a década de 90, e apontam perspectivas e expectativas. Receiam pelo futuro desta forma de expressão (porque a "concorrência" da internet é forte) mas lembram, também, que a Câmara de Almada tem a intenção de criar uma fanzinoteca - só que, até agora, o projecto não passa disso mesmo: um projecto e uma intenção.


Sobre as origens da Feira Internacional do Fanzine

José Pereira (JP) - foi na segunda Semana da Juventude, em 1986. Nenhum de nós era ainda funcionário ou colaborador da CMA, Na altura apareceu essa ideia de fazer a mostra dos fanzines. O Pedro Morgado foi buscar um caixote a casa cheio de fanzines. E montámos a banca ali no dia... Aquilo depois para a noite até ele foi buscar um petromax, para aquilo ter luz... Foi uma coisa de um dia, não passou disso
Pedro Morgado (PM) - era essencialmente banda desenhada nacional. O Geraldes Lino trouxe dois ou três amigos, que faziam fanzines. Eles trouxeram umas coisas, nós tínhamos outras... E assim se fez essa mostra.

Experiencias fanzineiras

PM - Por essa altura, 1987, também decidi que queria fazer uma fanzine para expressar algumas coisas que eu pensava, expressar a minha criatividade sob essa forma.Na altura até com outros amigos do Miratejo que eu convidei. Havia malta que escrevia, a fazer uns bonequitos e tal... A maior parte das pessoas acharam que era um desperdício de tempo e de dinheiro e que aquilo não levava a lado nenhum, que não valia a pena... Chamava-se Kenos. Era integralmente pago por mim, pelo autor. Quando muito a minha mãe ou o meu pai davam uma ajuda... Era beber menos uma cervejola, uns cafés, ou não comprar uns ténis...


Como apareceu e se desenvolveu a Feira do Fanzine

PM - Em 93 fiz o projecto para apresentar à Câmara de Almada (CMA). Consegui "vender" essa ideia porque usei o argumento que o público consumidor de fanzines naquela altura, os jovens, dali a quatro anos já seriam maiores de idade e já poderiam votar. E portanto que era uma óptima oportunidade para agarrar um potencial público eleitor. E eu continuo hoje convencido que foi esse argumento, que eu inventei na hora porque não estava a conseguir comunicar bem com a pessoa em causa, que ia decidir se isso era comprado ou não, ou se era feito ou não...
JP - Havia um funcionário da casa, que na altura era eu a acompanhar o projecto. Mas toda a ideia, toda a estrutura, todo o levantar dos alicerces da feira, foi tudo da responsabilidade da associação que propôs, o Toucinho do Céu (nr: associação informal criada por Pedro Morgado). A actividade, foi aceite, eles levantaram a estrutura toda e eu estava um bocado a levar com aquilo tudo por ser o profissional da CMA que estava a acompanhar. Não tinha ainda um grande envolvimento na criatividade, no processo de construção... As ideias convergiam para lá e eu fazia a montagem daquilo tudo. Com um bocado de carolice à volta daquilo.
PM - Tivemos o apoio, uma ajuda inestimável do Varela, que era do Centro de Cultura Libertária (CCL) que também tinha algumas dezenas de fanzines à venda e que disponibilizou esses fanzines, mais os que ele tinha em casa...E depois, os fanzines que falam de uma cultura alternativa normalmente trazem referência a outros fanzines, trazem contactos de outros. Havia fanzines que tu encontravas e tinham lá mais de 20 ou 30 contactos...
JP - Na feira de 94 eu e o Pedro passámos uns dois meses a desfolhar fanzines e a tirar moradas para um papel, para depois quando chegasse a altura de fazer os contactos a gente pôr aquilo tudo em cartas e mandar convites. As melhores feiras em Almada foram as que se realizaram a partir de 94 e até 99. Foram as que mexeram com mais gente, que tocaram mais gente. As que tiveram mais participação, com uns bons programas de animação. E isso resultou do entusiasmo das pessoas que lá trabalhavam. A gente gostava mesmo de fazer aquilo. Daí resultar tão bem.


Sobre o movimento cultural dos anos 90 em Almada

JP - Nós na casa da juventude em Cacilhas não tínhamos mãos a medir para a quantidade de coisas que nos apareciam. E éramos só dois...
PM - Houve ali alguns anos de franca actividade. E a feira do fanzine pelo menos serviu para isso... Como houve uma série de pessoas também que começaram a fazer fanzines, que também começaram a pintar, e não pintavam antes, houve malta que também não tocava e também começaram a fazer bandas...
JP - E estava tudo interligado!


Fanzines, "aldeia global", informação alternativa

PM - No fundo, se calhar, o papel ainda mais importante que os fanzines tiveram, e as feiras do fanzine concretamente, foi o potencial de aglutinação de pessoas. Porque podiam ou não partilhar dos mesmos interesses ou das mesmas ideias... Mas que juntou muitas pessoas, juntou. Nós chegámos a juntar lá (no Ponto de Encontro) umas boas centenas para ver os concertos... Mas também viam os fanzines e acabavam por fazer despesa no bar... acabavam por alimentar aquele sistema, que de alguma forma era espontâneo...
JP - E havia da parte dessas pessoas a procura de informação que não era a informação que havia, a informação "normal". E nós conseguimos aí fazer um bocado uma "mini-internet", chamemos-lhe assim. Através destes contactos todos que havia, chegámos a ter, no auge das feiras, 32 países representados. E o que fizemos ali foi basicamente o que a internet faz actualmente. Conseguimos, por exemplo, ir buscar opiniões sobre o mesmo tema, de vários pontos do planeta. Uma pessoa que estaria interessada em chegar à feira do fanzine e consultar aquela opinião, tinha aí uma visão global das opiniões sobre um determinado assunto...
PM - A feira do fanzine serviu mesmo como indicador da diferença de realidades culturais, por exemplo entre Portugal e Espanha, ou Portugal e o Brasil, ou Portugal e os Estados Unidos... De repente descobrimos que em Espanha havia centenas ou milhares de fanzines e que aquilo era uma coisa viva. Enquanto em Portugal andávamos aqui armados em provincianos...

Que futuro para os fanzines?


JP - Vendo aquilo que me chega, no que estou a preparar para a Feira deste ano, pelos contactos que fiz e pelas respostas que recebi, estão a esquecer um bocado qual é que é a própria função do fanzine. Nos anos 90 havia. pelas circunstâncias de estar a despertar uma série de áreas, uma série de actividades, o fanzine cresceu nessa altura. Actualmente o fanzine não é um suporte típico. O suporte típico é precisamente o contrário do fanzine, que é a informação mais disseminada, é a internet. Um fanzine não consegue neste momento combater esse tipo de coisas.
PM - Uma coisa é utilizar a internet à procura dum fanzine. Nesse caso tens de ter uma motivação de tu ires à procura de uma coisa. Outra coisa é chegar alguém ao pé de ti e dizer olha este fanzine. Perguntam o que é isto e tu explicas o que é um fanzine, e mostras e tal, e ofereces, no melhor dos casos. O processo de comunicação e de informação é personalizado, é uma cabeça e um coração de cada vez. Enquanto que na internet está lá e quem quiser vai lá. Como muita gente, se calhar até potenciais consumidores de fanzines, não sabem o que é um fanzine, nunca ouviram falar nem nunca viram um fanzine...
JP - Eu acho, e isto é importante, que actualmente os fanzines, pelo menos aqueles que me chegam, são feitos por menos jovens do que propriamente por jovens.Na minha opinião o fanzine é uma coisa que nunca vai acabar mas que está a diminuir drasticamente. Essa opinião vem do trabalho que eu estou a fazer este ano. Porque o cuidado que eu tive na divulgação, o cuidado que eu tive no contacto com as pessoas, não estou a ver nem um por cento do retorno, do feedback. O único feedback que eu estou a ter é aquele dos carolas que na altura quando eu ainda fazia as feiras do fanzine e que ainda se mantém no

E que tal uma fanzinoteca em Almada?

PM - Anda-se a falar há vários anos de criar uma fanzinoteca. Discute-se se deveria estar associada à juventude, à divisão das bibliotecas, onde é que deveria estar. Isso é uma questão para mim secundária. Agora, que deveria existir deveria, até porque eu pessoalmente tenho um espólio de umas centenas de fanzines em casa, aos anos, devidamente acomodados. E tinha todo o gosto e prazer de oferecê-los a um espaço onde eles fossem catalogados. E estivessem disponíveis para a população em geral.
JP - Mas aí também podes ter só os fanzines para lá e ninguém ir lá tocar...
PM - Não, não! É fazer uma fanzinoteca que esteja disponível para as pessoas como podem vir aqui aos computadores... E até pode ser uma listagem num computador, dos fanzines que tens, por países, por géneros, ou por anos... Quando eu comecei a fazer fanzines comecei "misteriosamente", entre aspas, não tinha o contacto directo com ninguém, recebi várias vezes cartas da Universidade do Minho a pedir-me dois ou três exemplares da minha publicação para eles terem lá na biblioteca. Sempre achei isso excelente. As pessoas que lá estão tiveram o interesse e a percepção, viram aquilo num jornal possivelmente, e decidiram vamos lá mandar uma carta a esta gente. Mas com as bibliotecas e com as câmaras e as universidades que há no país mais ninguém me fez isso, estás a ver? Isto demonstra logo que há pessoas que está interessadas em desenvolver, e outros...
JP - Eu percebo a tua ideia. Aliás, essa ideia é uma coisa de que já há muitos anos se anda a falar... Em Santo Amaro existem caixotes e caixotes de fanzines de edições anteriores da feira que estão à espera de uma proposta de classificação... A ideia quando se começou a juntar os fanzines que existiam no Ponto de Encontro, que eram caixas, e os fanzines da edição de 2001 que foi lá em Santo Amaro, foi precisamente com a intenção de pegar uma ideia de há muitos anos de criar aquilo que era até para ser, salvo erro, era até para se fazer em Santo Amaro, na Hemeroteca de Santo Amaro.


quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Mundo da Luta Olímpica entrevista Pedro Silva

O Blog "Mundo da Luta Olímpica" conjuntamente com a Revista Desportiva "O Praticante", irá a partir deste momento fazer entrevista aos vários Recursos Humanos das Lutas Nacionais.O nosso primeiro entrevistado é o Director Técnico Nacional da FPLA, Pedro Silva, onde respondeu às perguntas de forma directa e sincera. Boa leitura!!!

Entrevista de João Vitor Costa



Como iniciou a modalidade? O que o levou a optar pela modalidade?
O meu começo na Luta é pouco comum. Nunca tinha visto Luta ao vivo, não conhecia pessoalmente ninguém que praticasse a modalidade e não havia nenhum clube com Luta perto da zona onde morava. Para além disso, praticava desde os 5 anos uma outra modalidade num clube que ficava a menos de 100 metros da minha casa. Ainda assim, e com todo o apoio dos meus pais, tive a possibilidade de concretizar o meu desejo de começar a praticar uma modalidade que me cativava bastante através das poucas transmissões televisivas que conseguia ver, mas também pela dimensão histórica que tinha e pela sua profunda relação com os Jogos Olímpicos e com os ideais olímpicos. E aqui eventualmente os Jogos Olímpicos de Los Angeles terão desempenhado um papel decisivo no timing desta escolha.

Onde iniciou a modalidade?
Iniciei a prática da Luta no Sporting Clube de Portugal, clube onde aliás tive a felicidade de fazer toda a minha carreira como atleta.
Há algum treinador que o tenha marcado particularmente?
Durante toda a minha carreira tive apenas dois Mestres, Luís Grilo no Sporting e Atanas Ivanov na Selecção Nacional. Isto não obstante ter sido pontualmente treinado por outras pessoas em circunstâncias esporádicas. Das duas pessoas que referi, o Mestre Luís Grilo teve, pelo seu exemplo e ensinamentos, um papel determinante não só na minha evolução como lutador, mas principalmente no amor que sinto pela modalidade.

Que títulos obteve?
Como atleta fui Campeão Nacional individual 7 vezes, fui internacional umas largas dezenas de vezes, Campeonatos da Europa e do Mundo incluídos, e serei dos poucos portugueses com vitórias em combate em Campeonatos do Mundo de Seniores, mas guardo como principal marco da minha carreira o nunca ter tido qualquer punição disciplinar enquanto atleta, treinador, árbitro ou dirigente.

Que cargos desempenhou na Luta?
Tive a honra, o prazer, o privilégio e a responsabilidade de desempenhar os mais variados cargos na modalidade. Como referi anteriormente, comecei como atleta no Sporting e desde aí fui árbitro, treinador, Presidente da Direcção e da Assembleia Geral de uma associação distrital e neste momento exerço as funções de Director Técnico Nacional.

É licenciado em Educação Física e Desporto e mestre em Psicologia do Desporto. Que objectivo teve na sua carreira académica e o que pretende retirar dela?
Os meus objectivos académicos foram e são de formação pessoal. São resultado da necessidade de possuir as ferramentas necessárias a poder desempenhar, no máximo das minhas apacidades, a profissão que escolhi e abracei.

Os seus estudos trouxeram algo de novo à modalidade?
A formação dos recursos humanos ligados a qualquer entidade, seja ela uma federação, um clube ou uma empresa, reflecte-se necessariamente na sua capacidade de intervenção. Nesta medida estou convicto que a minha formação académica, mas também a minha experiência desportiva e profissional foram e são postas ao serviço da FPLA e da modalidade, trazendo alguma inovação positiva e também uma clara consistência nas políticas de desenvolvimento desportivo.
Que futuro prevê para a Luta?
Não querendo fazer futurologia, tenho a certeza que o futuro da modalidade será o que os seus agentes quiserem. Dito isto sinto-me muito confiante no futuro da Luta. Penso convictamente que a família da Luta conseguirá continuar a promover o crescimento e desenvolvimento da modalidade, não obstante as circunstâncias económicas e sociais em que vivemos atravessarem esta ou aquela crise.
Que atletas descreve como sendo os melhores?
Portugal tem atletas, masculinos e femininos, que regularmente têm estado entre os dez melhores da Europa do seu escalão e categoria. Assim, dos atletas de Portugal que estão em actividade, o currículo do Hugo Passos é objectivamente o que mais sobressai.
Como estão as nossas Selecções Nacionais?
Estamos a iniciar um novo ciclo olímpico e as Selecções Nacionais passam consequentemente por um processo de ajustes a um novo ciclo de trabalho e a um novo ciclo de objectivos. Estamos neste momento a tentar alargar a base de atletas que integram os treinos da concentração permanente, quer masculinos quer femininos, tanto em Lisboa, como em Setúbal, de forma a podermos elevar o nível e a qualidade do trabalho desenvolvido. Integrámos também 2
atletas de fora da área da Grande Lisboa no Centro de Alto Rendimento, o Dário Rafael do Delgadense e o Joel Machado de Tibães, para tentarmos potenciar os valores que surgem for dos dois distritos que têm concentração permanente. Estamos já com os olhos postos em Londres, em 2016 e em 2020, não é por acaso que a Luta é das modalidades com um número mais elevado de praticantes integrados no projecto Esperanças Olímpicas do Comité Olímpico de Portugal.
Os atletas das Selecções aspiram chegar ao topo?
Só assim faz sentido integrar uma Selecção Nacional. Só faz sentido abraçar um projecto de vida como este, se possuirmos uma grande vontade de atingirmos todo o nosso potencial.

Como um atleta de clube chega a Selecção Nacional, a um nível de alto rendimento?
O treinar no grupo das Selecções Nacionais em concentração permanente está ao alcance de qualquer atleta com vontade, disponibilidade e um nível de prática acima da média, agora para integrar o grupo com participação internacional regular é necessário demonstrar talento, vontade em superar-se, disponibilidade em submeter-se a um regime de preparação muito exigente, uma enorme capacidade de resiliência e a capacidade em competir ao seu melhor nível.
Algum dia, veremos um desses atletas a subir a um Podium Internacional?
Os atletas das Selecções Nacionais de Portugal subiram ao pódio de torneios FILA mais de 90 vezes desde que ocupo o cargo de DTN. Deve a "família da Luta" e a sociedade reconhecer o mérito, grande esforço e dedicação que esses atletas e treinadores tiveram e têm diariamente para honrar o País e a Luta nacional. No mesmo período Portugal disputou 4 combates para a atribuição da medalha de bronze em Campeonatos da Europa de Cadetes e Juniores em 2
estilos diferentes. Este facto merece um grande relevo, na medida em que em toda a história nterior da modalidade, que relembro tem mais de um século, em apenas uma ocasião um português tinha lutado para uma medalha (o Hugo Passos em 1999). Não obstante a Vânia Guerreiro (em 2 ocasiões), a Ana Pereira e o Tiago Silva terem ficado à beira da
medalha, é nossa convicção que a mesma poderá vir a acontecer a qualquer momento.
Como conseguimos um Campeão Europeu ou Mundial, ou mesmo um Campeão Olímpico?
Como se costuma dizer, as medalhas não se prometem, conquistam-se. Antes de responder a essa questão temos que ter a noção que Portugal em toda a sua história e contando com todas as modalidades teve "apenas" quatro Campeões Olímpicos. Temos ainda de ter a noção que Portugal é um país pequeno em número de habitantes, pequeno em taxa de participação desportiva e pequeno em recursos financeiros na área do desporto. Com isto em mente, só conseguiremos atingir esse nível de excelência fazendo um trabalho de laboratório de excelência e trabalhando qualitativamente muito acima dos nossos rivais de maior dimensão. Este trabalho é possível, extremamente difícil mas possível, mas está muito mais sujeito a imponderáveis do que países em que os recursos humanos, financeiros e estruturais sejam maiores. Ainda assim, é este um dos objectivos da FPLA, lutar pelos melhores resultados possíveis no panorama
internacional.
A Luta é um desporto pouco divulgado a nível nacional, porque é que isso acontece?
Em Portugal e na generalidade das sociedades ocidentais, o mediatismo das modalidades é poporcional à capacidade que têm de gerar receitas, sejam elas de publicidade, de merchandising, de venda de jornais, etc. e não do seu valor educativo, social ou desportivo. Neste sentido, mais do que tentarmos mudar o que não está ao nosso alcance mudarimporta potenciar aquilo que verdadeiramente temos capacidade de potenciar, seja através dos magazines do calendário nacional na televisão, seja através de publicações como "O Praticante", seja através da internet.

O que deve melhorar na Luta?
Não obstante a modalidade ter evoluído muito em termos qualitativos nos últimos anos, há sempre espaço para continuar a melhorar. Penso que as áreas prioritárias para os próximos anos deverão ser, ou continuar a ser, o contínuo alargamento da base geográfica da modalidade, o aumento da capacidade de autonomização do funcionamento das estruturas da modalidade (associações e clubes), e a melhoria na capacidade de comunicação interna e externa.
Os Clubes que temos dão tudo pela modalidade?
Estou convencido que as secções da modalidade dos nossos clubes dão o melhor de si pela modalidade. Agora isto não invalida que o envolvimento do clube com a sua respectiva secção seja de diferentes níveis em diferentes clubes, até por consequência de dinâmicas sociais que tornam o trabalho associativo baseado no voluntariado e em práticas benévolas um fenómeno em crise nos nossos dias.
Quais são os melhores clubes actuais? E já agora os melhores treinadores?
É muito difícil responder objectivamente a essa questão. O que é o melhor clube? Que clube tem mais importância para o desenvolvimento da modalidade?O clube que é Campeão Nacional de Equipas ou o clube com mais títulos de Campeão Nacional Individual?O Clube com mais atletas ou o clube que não tendo tantos atletas funciona num concelho ou distrito de grande
importância estratégica para o alargamento da base geográfica da modalidade?O clube que funciona há décadas ininterruptamente ou o clube com poucos anos de Luta mas com um grande envolvimento com a autarquia ou outros parceiros e que consegue angariar muitos apoios para a modalidade?E o mesmo se passa com os treinadores.Na minha perspectiva todos têm a sua importância e o seu valor, e o factor "melhor" é muito relativo, não é um valor absoluto, claro e indiscutível e é claramente uma questão a que não se pode responder, assim sem mais.
Quantas provas compõem o Calendário Nacional? E são essas provas suficientes para a modalidade?
O calendário nacional é composto pelo calendário federativo e pelos calendários associativos. O calendário federativo é composto por 11 eventos. O potencial de melhoria que existe, recai na articulação entre os calendários distritais e o calendário federativo, que em alguns casos pode ser melhorado, na medida em que os calendários associativos em conjugação com o calendário federativo, deverão ser mais do que o somatório das actividades dos seus clubes, deverão ter uma coerência e uma consistência que lhes permita abranger e potenciar a actividade dos
seus clubes e praticantes por si só.
Que prova tem uma maior participação das equipas e atletas?
Os Campeonatos Nacionais (individuais e por equipas) são por excelência as competições principais, a nível nacional, para qualquer atleta ou clube. Ainda assim todas as competições integradas no Ranking Nacional são competições de participação elevada.
Qual é para si a melhor prova realizada pelos clubes?
Mais uma questão extremamente subjectiva. O que é que é melhor: um evento como o Torneio Internacional de Sesimbra, como era organizado pelo G. D. C. Conde 2, ou Lutagi organizado pelo Ginásio A. C.? Só para citar dois exemplos de dois eventos completamente diferentes, mas que têm um impacto extremamente positivo nos atletas. Estas coisas não se podem ver assim numa perspectiva unidimensional, é necessário fazer uma avaliação sustentada e a médio e longo prazo. Os torneios são positivos ou não, pelo valor absoluto que têm e não em função da comparação que é feita com outros torneios.
Que novos projectos para esta modalidade?
Os projectos, novos e velhos, passam por continuar a promover e a desenvolver a modalidade no limite das nossas capacidades. Penso que o maior desafio que a modalidade e a federação têm no imediato passam por conseguir integrar e promover os novos estilos não-olímpicos integrados na FILA e conseguir fazê-lo em benefício de todos os estilos, nomeadamente os olímpicos.
Partilhe connosco uma história desta modalidade que o tenha marcado.
Como podem calcular ao longo do tempo que faço parte da família da Luta vivi ou assisti a muitos momentos marcantes. Desde a sensação de ter o árbitro a levantar-me o braço em sinal de vitória num Campeonato do Mundo, passando pelo ver uma grande prestação dum lutador ou duma lutadora da selecção nacional num grande evento a partir do canto do tapete, até presenciar e viver por dentro a evolução dos quadros competitivos da modalidade a nível
nacional ou o processo de implementação e aplicação do sistema de graduações são com certeza momentos muito marcantes. Mas não posso deixar de descrever aqui aquele que me parece ser um excelente exemplo de que tudo é possível, que é o último combate do Kareline, a final da Luta Greco-Romana, da categoria de 130 kg, nos Jogos Olímpicos de Sidney. Na altura custou-me muito ver um ídolo cair no último combate da sua carreira, mas logo de
seguida percebi que a Luta teve no imediato uma exposição mundial, que não teria com o quarto título olímpico de Alexander Kareline, e que a longo prazo a mensagem de que até o maior lutador de todos os tempos não é imbatível, que até alguém que cresceu numa pequena localidade rural, com um enorme esforço e dedicação, como Rulon Gardner, pode vencer o "invencível". Esta é uma "moral" fantástica para a história da Luta.
Que última mensagem gostaria de deixar aos leitores desta entrevista?
Que as Lutas Amadoras, a Luta Olímpica, a Luta, como queiram chamar a esta belíssima modalidade, é uma actividade que é para todos, que promove um sem fim de valores éticos, que promove a auto-estima, a auto-confiança, o espírito de entreajuda, a tomada de decisão, o pensamento estratégico e a perseverança de quem a pratica e em termos físicos é extremamente completa solicitando todos os segmentos corporais de um modo completo e harmonioso e que se ainda não a experimentou, deve experimentar assim que tenha oportunidade, pois irá ertamente beneficiar com a experiência.

Obrigado Pedro Silva pelo tempo disponibilizado e por ter respondido a estas perguntas de um modo aberto e sincero.