Mostrando postagens com marcador Alexandre Castanheira. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Alexandre Castanheira. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 20 de março de 2008

Alexandre Castanheira - Um Homem de Abril (crónica de Artur Vaz)


Por circunstâncias várias vejo-me obrigado a iniciar esta crónica com uma confissão: Tenho uma hora para fechar a minha crónica, que ainda nem sequer comecei a escrever. Contudo, a razão não se prende com falta de tema. – antes pelo contrário – pois ele já me anda no pensamento desde os finais da semana passada.
Outros compromissos têm-me tirado a oportunidade de ir escrevendo, pelo que resolvi começar agora para não atrasar o fecho do jornal.
Feita a confissão cabe agora dizer o pecado: vou-me plagiar.
Em Janeiro de 1999, aquando da entrevista para o meu primeiro volume de ALMADA – GENTE NOSSA, solicitei ao amigo e companheiro Dr. Alexandre Castanheira que nos falasse do jovem que aos 16 anos lutava contra o regime de Salazar e que passado pouco tempo – já militante do Partido Comunista – foi obrigado a passar à clandestinidade, foi peremptório:
«A minha passagem à clandestinidade ficou-se a dever à praticamente impossibilidade de continuar a luta na legalidade. Com efeito, já no final do meu curso de Histórico-Filosóficas fui preso pela PIDE, como medida de segurança salazarista pelo facto de se realizar em Lisboa uma reunião da NATO. Posto em liberdade ao fim de dois meses, apenas a gozo quinze dias, volto a ser preso e fico em Caxias mais três meses. Recusam-me fazer os exames de licenciatura sob prisão e, como não concluo o curso, mandam-me para a tropa. Faço-a como soldado-cadete durante seis meses e, já com as divisas de oficial miliciano, prendem-me no quartel (Mafra) e volto para Caxias para mais seis meses, passando noventa e dois dias isolado. Desta vez levam-me a tribunal Plenário, tendo aguardado julgamento em liberdade por ter sido entregue pelo meu advogado uma caução. Enquanto preso voltam a não me deixar concluir os exames de licenciatura. Que futuro seria o meu, sem abdicar da luta? Uma vez absolvido e devolvido à liberdade, decido desaparecer e continuar o combate na clandestinidade. Foram quinze anos de entusiasmo e de sacrifícios, de vitórias e algumas derrotas, um tempo inolvidável de conhecimentos de homens e mulheres extraordinários, meus mestres políticos fossem eles operários, trabalhadores rurais, professores, intelectuais, artistas...Vida difícil do ponto de vista económico como do ponto de vista familiar, mas exaltante.»
Decorrida quase uma década, ao ler o seu livro OUTRAR-SE ou a longa invenção de mim (2003), fiquei a saber que naquele dia de Janeiro, estava defronte do Edgar; do Fontes; do Jorge; do Carlos; do Alberto; do Furtado Leal; do diplomata François; do Henri o provençal judeu; do Claude; do Xavier que acabou por dar uma boleia ao agente Felismino; do Mário um suposto engenheiro de minas; do Carlos; do Marc; do professor Sousa que, morto de saudades e com receio de perder a família, resolve pôr fim a quinze anos de clandestinidade ciente da sua atitude em deixar de «ser praia deserta» e do Alex que ruma para terras de França «num viver excluído», mas com orgulho em ser operário e sindicalista entre muitos compatriotas, pois a chama dos seus ideais continuava com mais alento dentro de si. Com esforço e afinco depois do trabalho, Alex volta à Faculdade concluindo uma licenciatura em Literatura Moderna.
Em suma, um Homem marcado por uma vida sofrida, encarnada em vários pseudónimos, que eu admiro e respeito – mas que por força do destino – não foi baptizado por Edgar, mas sim por Alexandre, pois nele existe decisão e tenacidade.
As palavras que acima transcrevo são uma das muitas peças integrantes de um puzzle da vida de um grande mestre na arte da escrita. Certeiro nas ideias e de rara beleza na prosa, Alexandre Castanheira faz deste seu livro – em meu entender – uma das suas melhores obras, a juntar ao seu vasto espólio.
Em OUTRAR-SE, o seu peculiar dom de romancear, faz desta sua autobiografia, um testemunho histórico verdadeiro de um Portugal que renasceu pela intervenção cívica e política de homens como ele.


As vivências dos seus heterónimos, fazem-nos ver com nitidez “pôr entre as vidraças da memória” como foi dura e sofrida a luta por si encetada.
Tanto antes como depois da Liberdade, Alexandre Castanheira tem liderado vários movimentos sociais e culturais, desempenhando um papel preponderante a favor do progresso e da transformação humana, valores que se fundem na mesma alma e num só corpo.
Não se escondeu nas trincheiras de uma clandestinidade aburguesada, mas sim na luta com os operários, sem nunca abdicar da sua capacidade de intervir. O caminho era as suas ideias e por isso não se deixou Outrar.
Assumindo com coragem e determinação esta sua memória, guardiã do travo de tristezas e mágoas de um abandono forçado, por amar a Liberdade.
OUTRAR-SE ou a longa invenção de mim é, irreversivelmente, a sua própria tatuagem. Um livro inquestionável na sua vasta bibliografia, pela narração densa envolvida num impressionante realismo perturbador, ao ponto de o lermos num sopro.
Alertando como foi penoso alcançar a Democracia, o autor continua persistente na necessidade de arregaçar as mangas, para não deixar que a primavera de esperança que os cravos de Abril floriu, dê lugar à resignação e à vil tristeza de um povo sem ambição.
Voltando de novo a plagiar-me, «Almada tem registado, no decorrer dos anos, um vasto lote de figuras, que através da sua intervenção social e política, têm feito desta cidade, erigida à beira do Tejo, um ponto de referência e, porque não, um marco ímpar na própria história do movimento associativo e cultural português.»
Obrigado amigo Alexandre Castanheira, a sua luta antifascista e a sua intervenção cívica foi reconhecida com o grau de Comendador da Ordem da Liberdade.
Contudo, Almada – seu berço natal – ainda lhe deve muito e como bom filho que é, merece o preito de uma justa homenagem pública – em que o ponto mais solene seja a atribuição da Medalha de Ouro da Cidade – pois só assim se reconhece os elementos fundamentais, para que os vindouros almadenses vejam em si uma fonte de inspiração e de orgulho, para alicerçar o seu futuro.


Artur Vaz*


*Jornalista e escritor




Artigo publicado no Jornal Notícias de Almada nº 139 de 14 de Março de 2008


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

"Tempo Meu" - poesia de Alexandre Castanheira

CANTO NOVO DA ALEGRIA

(À memória de Manuela Bento e Cezarina Marques
do Coral Canto Novo)

É próprio do homem sonhar
com um futuro são, risonho,
que nos dê vontade de cantar
a realidade vinda do sonho.

Só esse canto é que se diz novo
pois abre as estradas do porvir;
só esse é amado pelo povo
que em vez de sofrer quer sorrir.

Assim pensava Manuela Bento,
discreta mulher mas muito firme
no dar à esperança o complemento
de um canto de certeza que se afirme.

Tal como a coralista Cezarina
- ambas capazes de afastar obstáculos
(como se fosse essa a sua sina!)
p’ra ‘starem presentes nos espectáculos

que fossem p’ra levar para diante
a voz cantada do bem querer,
que o povo oiça e se levante
e ponha fim a todo o padecer.

Marcaram o Coral eternamente,
merecem ser lembradas por nós:
seu Canto Novo enche-nos a mente
da vontade de a todos se dar voz.

Sempre que ouvimos o seu Coral
continuamos a tornar novo o canto
cuja missão é dar luta ao mal
e fazê-lo cantando com encanto.

Em qualquer lado em qualquer sala,
conjugamos em poema e harmonia
esta determinação que não se cala
de fazer reinar no mundo a alegria.

Alexandre Castanheira


poema incluído na obra
"Tempo Meu"

caderno nº 62 da colecção
Index Poesis - Uma Dúzia de Páginas de Poesia"
Edição Poetas Almadenses, Fevereiro 2008

Mais poemas do autor, no blogue Debaixo do Bulcão:


Texto de Romeu Correia sobre Alexandre Castanheira e a peça de teatro “Chico do Norte”

«Alexandre Castanheira na minha memória

Por volta de 1943, em plena Segunda Guerra Mundial, em que se travava uma luta de vida ou de morte pela Democracia, e ainda as hostes nazi-fascistas estavam na mó-de-cima, alguns jovens empreenderam na então pacata vila de Almada uma dinamização cultural. Criaram a Biblioteca Popular da Academia Almadense, ressuscitaram a dúzia de livros esquecidos (desde 1931) num escaparate de outra colectividade, a Incrível, promovem palestras e recitais de poesia por outras agremiações. E é por essa ocasião que todos nós começamos a notar a presença de um jovem de 15 anos de idade, loiro e de fino aspecto, que muito interessado se mostra por todas essas actividades de esclarecimento da população.

Por essa altura, ainda a Academia se encontrava de relações cortadas com a velha Sociedade Filarmónica Incrível Almadense (esta fundada em 1848, em pleno reinado de D. Maria II, no rescaldo da Revolução da Maria da Fonte, que apeara a ditadura de Costa Cabral, e que, dada a tremenda dificuldade em se constituir nessa altura uma associação popular – já nesse tempo… -, adoptou o nome insólito de Incrível…), situação anómala e lastimável que não dignificava uma vila de trabalhadores, tão progressiva como Almada.

Esse jovem, de nome Alexandre Castanheira, aluno liceal e mais tarde universitário sem que tivesse perdido ano algum (um aluno distintíssimo e mui prometedor, como nestas circunstâncias são noticiados no carnet mondain os meninos-bem…), além do estudo dedicava já um amor visceral à vida associativa da sua terra e um acrisolado interesse pelo povo trabalhador.

Até aqui nada haveria a acrescentar sobre este rapaz, pois o Alexandre Castanheira começava como todos nós e até como muitos outros, que, infelizmente, após o curso universitário e o casamento, se acomodam, tratam da vidinha, esquecendo tudo e todos sem o mínimo respeito pelas antigas opiniões e atitudes.

Mas com aquele jovem loiro (que assinava agora os primeiros poemas com o pseudónimo de Edgard Castanheira) tudo se iria processar, e exemplarmente, de modo diferente. Sem o mínimo esmorecimento foi galgando os anos liceais e universitários, dando ao mesmo tempo uma importante colaboração às actividades culturais do concelho de Almada. Palestras, recitais de poesia (colaborou até com o Orfeão da Academia de Amadores de Música, dirigido pelo Fernando Lopes Graça), aulas de francês, cargos directivos na Incrível e no Grupo Campista. Que fogos de campo ele organizou!

(…)

Em 1947, pertencia à Comissão Central do MUD Juvenil, actividade que prolongou por mais sete anos. Veio a campanha do general Norton de Matos como candidato à Presidência da República, e a voz do Alexandre foi ouvida em todo o distrito de Setúbal.

Claro que, entretanto, a Pide havia preenchido já a sua ficha de anti-fascista e anotado essa actividade consequente ao ponto de o hospedar por várias vezes nas suas enxovias. Aqui não deve ser olvidada a actividade colaborante de sua Mãe – uma grande e corajosa mulher! – que, sem descanso, lutou nas negras horas pela libertação do filho. Abaixo-assinados, surtidas à sede da polícia política, tão insistentes e intimoratas que obteve (naqueles vergonhosos tempos!) permissão de ser recebida e de até discutir com o chefe supremo da Pide de então, o famigerado Neves Graça.

Por volta de 1954 (perdoa, caro leitor, a citação destas datas!), o Alexandre, com a licenciatura de Histórico-Filosóficas concluída, desapareceu do nosso convívio. Os pais haviam saído de Cacilhas para outro lugar, e nós pouco ou quase nada sabíamos do destino daquele jovem doutor, que tão bruscamente se eclipsara dos amigos e do movimento associativo almadense.

No Outono de 1956, viajávamos numa camioneta nos arredores de Lisboa, quando nos tocam nas costas. Era ele! Mas sempre o mesmo: risonho, jovem e irrequieto de esperança. E não tardou a explicação da ausência: militava no Partido Comunista Português e mergulhara na clandestinidade sem demora, porque não podia continuar a viver dentro e fora da cadeia…

Mais vinte anos vão decorrer sem que o cidadão Alexandre Castanheira visite a terra natal. Todos sabemos que reside em França e é membro do sindicato CGT da fábrica de automóveis Renault, exercendo o cargo de secretário do Movimento Francês Contra o Racismo. No exílio, licenciou-se igualmente em Letras Modernas Francesas, pela Universidade de Paris. A sua absorvente actividade social e política, na luta travada contra a ditadura fascista, limitou, como é natural, o professor e o poeta nas suas realizações.

Após o 25 de Abril, este nosso querido amigo visita por duas vezes a sua (e nossa) terra natal, e em ambas as permanências presenteia os patrícios com palestras e recitais de poesia. E, da última vez que nos abraçamos, entrega-nos uma peça teatral, intitulada Chico do Norte, com o pedido de que lhe acrescentemos algumas palavras de apresentação.

Chico do Norte é um belo e corajoso texto teatral elaborado para a defesa da Reforma Agrária, a conquista maior da Revolução de Abril. Peça didáctica, muito precisa nos seus objectivos, servida por figuras e problemas dos nossos campos, homens e mulheres mergulhados em moral-velha, de figurino feudal, e espoliados desumanamente no viver quotidiano.

Ao longo de dois actos e um epílogo, o autor retrata uma família de camponeses nortenhos – Chico Carrapeto e os seus –, que se debate entre a hipoteca da courela ao agrário-insaciável e a miragem-recurso da emigração.

(…)

Mas lentamente, muito lentamente (como a consciência de classe é, por vezes, morosa a conquistar os próprios interessados!), homens e mulheres ganham lucidez e descobrem o lado (o seu lado) da razão e os remédios para debelarem tanta miséria.

Almada, 20 de Outubro de 1977»

Romeu Correia

(No prefácio a “Chico do Norte”, texto para Teatro, de Alexandre Castanheira. Setúbal, 1977)

Mais informação:

Biografia de Romeu Correia:
pt.wikipedia.org/wiki/Romeu_Correia

Biografia de Alexandre Castanheira: